Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Um dia perfeito para conhecer Ronaldo

Domingos de sol constituem uma partícula do paraíso que realmente provam a existência de Deus e manifestação d'Ele aqui na terra. Sendo no Rio Grande do Sul, então, o quadro da perfeição fica completo. O dia de ontem pode, perfeitamente, ilustrar o panorama descrito acima.
Porém, um domingo de sol pode tornar-se insosso se mal aproveitado. Há quem passe um dia desses dormindo, curando a ressaca dos embalos de sábado à noite e acorde apenas para rir das cacetadas do inexorável Fausto Silva. Outros trabalham, cortam a grama, lavam o carro, enfim, transformam a límpida e cristalina lagoa dominical numa efêmera poça d'água. Eu mesmo já gastei inúmeros domingos em cada um dos exemplos citados.
Ontem, contudo, quis o destino que meu dia fosse perfeito. Pouco depois do meio-dia, meu telefone tocou. Eis que surgiu um convite tentador para viajar até Porto Alegre e assistir ao confronto entre Grêmio e Corinthians pelo certame nacional. Julguei que seria uma boa oportunidade de apoiar meu time do coração, carente de palavras incentivadoras após a melancólica eliminação para o Cruzeiro na Libertadores, ambição máxima do tricolor gaúcho para 2009.
Combinamos tudo e fomos, o Biriba, o Amarelo e eu. Cabe frisar que, dentro da capital dos pampas, sou facilmente comparado a um cachorro que caiu da mudança, ou seja, se me girar quinze vezes e mandar eu voltar pra casa do miolo de Porto Alegre, certamente precisarei de muitas informações, ou de um táxi solidário.
Disse o Biriba que conhecia o caminho, que seria barbada de chegar ao estádio Olímpico e talicoisa. Toleimas. Dei-me conta da furada quando ele disse que seguiria o carro da frente, já que havia uma bandeira do Grêmio nele, o que, contando com a sorte, nos levaria ao local da partida. Pior ainda foi quando o dito carro seguiu em frente num cruzamento e o Biriba, numa manobra que até agora não entendo por que ele fez, converteu à esquerda, imergindo-nos junto ao caótico trânsito portoalegrense - e já nem sei mais como se escreve portoalegrense depois da maldita reforma ortográfica.
Todavia, era domingo e de sol. Nada abalava meu humor, uma vez que eu estava a poucos quilômetros de apoiar meu time no estádio e, se os deuses do futebol quisessem, empurrá-lo para uma vitória.
Foi sofrido, chulhado, foi na unha. Não o jogo, mas chegar até ele. O Biriba demorou, mas admitiu que também estava perdido. Acometido por uma vergonha do tamanho do seu nariz, e olha que ele tem um nasa de fazer inveja a qualquer turco, parou o carro e pediu informação. Não sei por que alguns homens conservam esse orgulho besta de não querer pedir socorro quando se perdem, eu não sou assim. Se já tô na merda, pra que sapatear? Paro no primeiro posto e peço ajuda mesmo, antes chegar mais rápido, do que tentar provar que sou algo que não sou, já que vim sem bússola de fábrica.
Chegando no Monumental, depois de darmos mais voltas que bolacha Maria em boca de velho, havia uma fila quilométrica para comprar ingressos e faltavam apenas quinze minutos para o jogo. Cambistas, aí vamos nós! Pedi pro Amarelo, com toda sua protuberância corporal, partir para a pechincha com algum deles, mas o que o rapaz tem de grande, tem de arredio. Como Pau no Mato é Pau no Mato, peguei a carteira do vivente e parti pra peleia. Conheci, então, o poder de hipnose que uma nota de cem reais exerce sobre um brasileiro. Quando mostrei a garoupa pro tiozinho, enxerguei pela primeira vez o pivô amarelo manifestar-se, solitário, num breve sorriso ganancioso. Ou dá, ou desce. Ele deu. Ingresso na mão e cambista feliz, que beleza.

Bom, agora pára tudo, e pára com acento, porque ainda não me conformo com a extinção do acento diferencial, um verdadeiro acinte à Língua Portuguesa.

Após essa breve introdução, devo contar um pouco sobre o que sente um amante do futebol quando sabe que vai, pela primeira vez, ver de perto o maior artilheiro de todas as Copas do Mundo de futebol: Ronaldo, brilha muito no Corinthians.
Desde que aceitei o convite para assistir ao jogo, saber que veria Ronaldo Nazário de Lima jogar ao vivo, a olho nu, sem dúvida foi uma motivação a mais. Meu pai deve ter sentido o mesmo em relação a Falcão e Zico. Digo isso, meus caros, porque um apreciador do bom futebol enche seus olhos quando assiste a um jogador diferenciado, e Ronaldo, guardadas as devidas proporções e características próprias, assim como Zico e Falcão, é um jogador de exceção. Pode estar gordo, pegar traveco, matar treino, falem o que quiserem, mas ninguém torna-se o maior artilheiros de Copas do Mundo por acaso. O cara é, com todo o respeito, foda. E com orgasmos múltiplos.
Ao entrarmos no estádio, acontecia justamente naquele momento o famigerado minuto de silêncio. E, diante da quietude, foi a silhueta obesa de Ronaldo que enxerguei dentro do campo, ignorando os demais vinte e um jogadores que ali estavam. Às quatro da tarde do dia doze de julho de 2009, realizei um sonho de infância: vi um craque de perto.
A bola rolou e o sonho esvaiu-se em meio ao meu gremismo acentuado. É claro que admiro o cara, mas jamais gostaria de vê-lo marcando um gol no Grêmio. Como todos sabem, era um domingo de sol no Rio Grande do Sul, ou seja, o gordo não teve vez. E, de fato, não precisava o Ronaldo jogar bem, eu apenas queria vê-lo de perto, dominando uma bola, dando um passe, tomando um cartão amarelo. Vibrei ao ver que o Fenômeno é humano, também perde, é de carne e osso como todos nós. Pode, sim, um homem comum executar o que ele já fez brilhantemente nos gramados europeus. Esbravejei ao contemplar meu tricolor fazendo três a zero, ao natural, justamente no algoz do co-irmão na semana passada. Carimbamos a faixa deles, e com que mestria!
Depois de regozijar-me fartamente com o maiúsculo resultado conquistado pelos comandados de Paulo Autuori, retornamos para casa felizes, satisfeitos e sorridentes. E eu, que andei tão desacreditado das benesses dessa vida, pensando que tudo tem gosto de rúcula e rabanete, pude novamente desfrutar de um dia bom. Simplesmente bom. Humanamente bom. Um agradável, irretocável e emoldurado domingo de sol no Rio Grande do Sul.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Cinco meses

É engraçado como a vida pode mudar tão de repente. O contundente poder que um fato isolado traz consigo, provocando uma série de alterações em diversas vidas, personalidades e almas. Eu, que sempre me julguei tão conhecedor de mim mesmo, sabedor das minhas qualidades e limitações, de uma hora para outra cheguei à conclusão de que oitenta por cento das minhas convicções não passavam de pura utopia.
Não penso que tenha modificado valores, ou mesmo características marcantes da minha personalidade após a morte do meu avô. No entanto, a maior parte disso tudo já não faz mais a menor diferença, e isso, devo confessar, me desanima bastante.
Continuo o mesmo palhaço, animador de grupinhos, imitando meia-dúzia de personagens e, pateticamente, arrancando risadas das pessoas. Comprei um carro, que maravilha, meus dentes estão quase no lugar, o que dá ao meu sorriso um traço marcante nesse rosto judiado do sereno. Meu cabelo está forte e viçoso, algo que até certo ponto influencia no assédio feminino, e como é bom ser elogiado.
Tudo isso pra quê? Não sei. Sinceramente, não vejo sorte ou revés nenhum em todas as coisas que acontecem comigo. Trabalho porque preciso, canto porque gosto, jogo bola porque o futebol é meu ópio, durmo porque é necessário. Faço minhas festas, pago minhas contas em dia, tenho a consciência tranquila quanto a todos os meus atos. Me arrependo de alguns, é verdade, porém nada que seja relevante. Sou, enfim, feliz.
E daí? De que vale tudo isso, se daqui pra frente a vida é só um mar de saudade? Qual é a graça da felicidade incompleta? Ouvir dos outros que isso passa, que é preciso se acostumar com os fatos e que a vida é assim mesmo? Pois, lhes digo, grande merda tudo isso. Vou passar o resto da vida feito um babaca, varrendo as desgraças pra debaixo do tapete e pintando um arco-íris ilusório pra ofuscar a nefasta realidade.
Continuo sorrindo, sim. Me divirto, exerço todas minhas atividades com parcimônia, aceito os obstáculos, enfrento alguns, desvio outros, jogo na Mega-Sena pra ficar rico e passar o resto da vida nadando numa caixa-forte cheia de moedas douradas, como se fosse o próprio Tio Patinhas.
Tudo isso, no entanto, passou a ter uma nova conotação desde que Deus levou meu avô. Parece papo de criança mimada, é verdade, mas, querem saber? Não estou nem aí. Nada me tira da cabeça que, ao chegar na frente d'Ele, descobrirei que tudo o que temos aqui não passa de uma grande bobagem, apenas uma perda de tempo enquanto a confraria de querubins decide como, quando e onde deveremos viver o resto de nossos dias.
Muita gente consegue viver legal assim, realiza seus sonhos, constrói vários sentimentos lindos, imaculados e benevolentes. Tem gente que até santo vira! Vejam só, que beleza. Faço o bem, sim, é tri massa ver as pessoas sorrirem. Se tem algo que eu não gosto, é ver uma pessoa sofrendo por minha causa. E, porca miséria, deve haver pelo menos uma dúzia delas, imperfeito que sou. Fazer o quê, né? Quando eu morrer, uns me praguejarão, outros chorarão sobre o meu caixão. Enquanto isso acontecer, jogarei, alegremente, a primeira canastra contra meu avô post mortem. Não vejo a hora de emputecer ao vê-lo matando dois dez de ouros numa trinca como o vi fazer diversas vezes.
Enfim, cada um faz da sua bela vida o que quiser. O que, na minha mórbida e modesta opinião, não faz diferença alguma, já que, bem ou mal, nosso destino é o mesmo. Ruim mesmo é passar o resto dos meus dias com saudade, olhando para fotos e percebendo que o tempo que era bom de verdade já passou. O que vem pela frente, risadinhas à parte, é apenas o resto da ampulheta. Sorte de quem se diverte.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Valmir, o inigualável

Há dias que quero contar algumas peculiaridades a respeito do lugar onde trabalho. Artisticamente falando, eu diria que a empresa é de uma riqueza cultural imensa, uma vez que em apenas quatro meses já aprendi a imitar pelo menos cinco pessoas. Volta e meia, basta conversar poucos minutos num pequeno grupinho, que alguém já pede para que eu imite um deles. Virei celebridade na ala feminina da empresa e, acreditem, isso é bom. Depois que comprei meu carro, então, triplicaram os convites para almoçar vindo das gurias. Bem, mas sobre isso falarei em outra oportunidade.
Hoje quero brindá-los com a inigualável experiência que é conhecer o Valmir. Também conhecido pelo nada simpático apelido de Tiririca, Valmir é um dos motoristas das carretas que viajam para o porto de Rio Grande, entre outros galhos que eles quebram pra mim.
Comecemos pela dicção dele. Uma conversa ao telefone com essa figura é uma missão hercúlea. Primeiro, não se ouve o Valmir; se decifra o que ele diz. As palavras atropelam-se continuamente, sobrepondo vírgulas, pausas e fazendo com que eu me pergunte diariamente a que horas ele respira enquanto fala comigo. Isso, é claro, quando ele está calmo. Esses dias, o telefone tocou: chamada a cobrar. Antes que eu dissesse alô, jorraram as cataratas do Iguaçu em reclamações no meu ouvido. Era o Tiririca que, fulo da vida, defenestrava dezenas de palavras incompletas por segundo aos berros, reclamando de algo que até hoje eu não sei o que é. Percebendo que seria impossível interrompê-lo, escutei-o com parcimônia. Ele falou, falou, falou e falou, até que parou. Respirou fundo, pude ouvir seus pulmões recuperando dois litros de ar gastos em trinta segundos. E aí veio o tiro de misericórdia:

- E aí, o que tu acha?

Precisei pensar rápido. Numa fração de milésimo de segundo, as lamparinas do meu juízo faíscaram e, como bom aprendiz de psicólogo, devolvi o problema:

- Valmir, o que TU acha que tem que fazer?

Foi uma saída esperta, porém incompleta. Ele desandou a dar sua opinião desatinadamente e, antes que ele perdesse mais dois litros de ar dos bofes, consertei minha resposta:

- Cara, faz o que tu achar melhor.

Resolvido. Ele apenas consentiu com uma expressão afirmativa em seu dialeto próprio e desligou. O problema é que o Valmir tem uma característica digna de cinema: é o cara mais azarado que já conheci. Murphy seria padrinho dos filhos dele se os dois se conhecessem. A tese é: se tem que acontecer algum problema com um caminhão, sempre será com o Valmir. Cansamos de coletar em várias empresas com todos os motoristas. Pois, quando chega a vez do Tiririca, ocorre um atraso, cancelam a coleta, a carga sofre avaria, dá um engarrafamento, sei lá, acontece de tudo.
Esses dias ele foi levar o caminhão na mecânica porque, adivinhem, sempre há algum problema com o caminhão do Valmir. É claro que isso também se deve ao fato de ele ser extremamente queixoso, mas a verdade é que o veículo dele nunca está 100%. Pois bem, coisa simples, lá se foi o baita, com a recomendação de não demorar, pois eu precisaria dele logo depois.
Quarenta minutos depois, me liga o Valmir, graças a Deus, calmo, mas contando que se atrasaria, pois a rodovia estava completamente trancada, talvez em decorrência de algum acidente. Seu Carlos, meu chefe, apenas balança a cabeça e ri quando comento que ele vai atrasar. Nada mais costumeiro.
À noite, quando cheguei em casa, parei para assistir ao noticiário regional. Os Sem-terra paralisaram a BR-116 para protestar, como já é de costume fazerem desde que existem. Tanta gente que passa o dia ralando no sol a pino pra ter o que comer na janta, e os belezas trancam tudo para ganhar terra do governo. Pobre também sabe colaborar com a desigualdade social, isso não pertence só à elite. Pois bem, confesso que tive de esfregar os olhos para enxergar melhor, mas adivinhem QUAL CAMINHÃO estava parado em frente à manifestação com o logotipo da empresa estampado na porta? Se você mentalizou o nome Valmir, acertou em cheio. Definitivamente, ele possui um imã que atrai contratempos.
Não posso, contudo, questionar a postura profissional do cara. Ele reclama bastante, é verdade, mas é o motorista mais caprichoso que tem por lá. Às vezes, o Valmir some. Basta procurar nos fundos do pavilhão, e encontro ele lá, pano e balde em punho, esfrega, esfrega, esfrega. O caminhão do vivente é um brinco. Já perdemos as contas de quantos pares de sapato ele perdeu, pois ele os tira e entra descalço na cabine, tudo para que não reste um resquício de poeira em seu local de trabalho. O que tem de azarado, tem de zeloso pelo patrimônio da empresa. Talvez por isso o caminhão dele sempre tenha algo a fazer.
O estopim da criação desse texto foi o almoço de hoje. Sentei-me ao lado do Valmir e fazia minha refeição tranquilamente, até que ele olhou para meu prato e disse:

- Bahhh, mas olha o bife dele, esse aí não tinha quando eu fui me servir.

Mastiguei, engoli, dei um sorrisinho amarelo com enfeites verdes da couve pendurada no aparelho e apenas assenti com a cabeça. Não satisfeito, ele proferiu a frase que me compeliu a homenageá-lo com esses parágrafos.

- Putz, mas eu sou de azar mesmo! Peguei um pedaço de carne que é pura gordura! Não dá pra comer isso aqui!

Até pra ele a ficha caiu. Não resta mais dúvida, o Valmir é um azarão sacramentado. Mais um personagem para o meu currículo de pseudo-imitador.

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