A dor do Oeste

São inúmeros os motivos que me obrigam a tentar transcrever em palavras a dor que está rasgando meu peito desde a hora em que acordei e li pela primeira vez no Whatsapp a frase "caiu o avião da Chapecoense". Parecia até piada de mau gosto àquela hora da manhã, e de fato era. Uma piada de péssimo gosto que o destino aprontou para todos nós, sejamos ou não amantes do futebol, conheçamos ou não a cidade de Chapecó.
Minha simpatia pelo Verdão do Oeste não é de agora. Como a Dani é natural de São Miguel do Oeste, cidade que fica a 100 quilômetros de Chapecó, e como meus sogros residem lá até hoje, de tempos em tempos visito a região e conheço um pouco da cultura do povo local. Dentro disso, fã de futebol que sempre fui, através do meu sogro passei a conhecer a organização do futebol do oeste
catarinense, tanto amador quanto profissional, bem como aprendi a admirar a maneira eficiente com que as cidades da região organizam o esporte. Para quem não sabe, a região é bastante próspera, há gente muito trabalhadora e competente por lá. O empresariado do oeste catarinense investe fortemente no futebol local e, por ter a Chape se destacado no cenário nacional, atraiu inúmeros investimentos, o que fatalmente acabou levando o clube à primeira divisão do certame nacional e o fez permanecer na elite. Recordo direitinho a época em que a Chape subiu para a Série A, ao que comentei com meu sogro que ficaria fácil a logística para que ele pudesse acompanhar o enfrentamento com o Grêmio, já que ele reside tão distante de Porto Alegre e nunca consegue acompanhar o time no estádio.
De lá para cá, passei a olhar a Chape com ainda mais carinho. Em jogos de simulação de treinador, comandei a equipe várias vezes. Nas escalações do Cartola muitas vezes tive jogadores do time escalados. E, claro, nas vezes em que ia a São Miguel do Oeste, sempre buscava nas páginas dos jornais locais as notícias que tratavam do Verdão mais querido da região. Uma relação de simpatia límpida, sem interesse algum, apenas pela felicidade de ver o futebol da terra do meu sogro representado no cenário nacional.
E agora, essa tragédia. Não sei lidar nada bem com essas coisas. Não foram só os jogadores, mas também a comissão técnica, os jornalistas, os tripulantes. É muita gente jovem tendo a vida interrompida assim, de soco. Tive a mesma sensação de tristeza que passei ao acompanhar a tragédia da boate Kiss em Santa Maria, sentado em frente à televisão, vendo as pessoas chorarem, chorando junto por pessoas que nunca vi pessoalmente, mas que de certa forma fazem tanta parte da vida da gente.
Há o fator futebolístico envolvido. Pairava sobre todos nós um clima iminente de festa. Pelo Grêmio, há 15 anos sem títulos e finalmente prestes a retornar à glória; pela Chape, de batalhas inacreditáveis na Copa Sul-Americana, comendo pelas beiradas e à beira de um enfrentamento que lembraria Davi contra Golias, que coisa linda é quando um time dito "pequeno" chega a uma decisão deste tamanho. Era uma felicidade ampla, indubitável, que preenchia o peito e dizia para nós todos: "vai dar, será histórico, inesquecível". Hoje, meus caros, hoje não há como amar o futebol sem doer enormemente. Toda essa felicidade foi interrompida com a tristeza de uma derrota irreversível.
E bem, dane-se o futebol, muitos dirão. É verdade, concordo plenamente. Depois de assistir à repercussão de todo esse horror, a gente percebe que os danos ao esporte são mínimos perto da amputação das tantas famílias e amigos que perderam seus entes queridos. Tantos jovens, pais de família, muitos com filhos pequenos. Em meio à consternação do noticiário, infelizmente a rotina continuou e tomei meu banho, me preparei para ir à faculdade. Acordei minha filha de 2 anos e, com a televisão ligada, fiquei conversando com ela de forma animada, disfarçando a dor, pois ela acordara de extremo bom-humor e sem saber confortava meu coração com seu sorriso tão lindo e despretensioso. Lá pelas tantas, quando disse a ela que a levaria para a casa da vovó, perguntou-me se eu iria junto. Respondi que sim, mas que depois teria de ir para a faculdade. Então, fui abalroado por uma pergunta que esmagou meu coração:

- Tu volta, papai?

Volto, filha, é claro que o pai volta. No entanto, imediatamente lembrei dos filhos dos atletas que perguntarão às mães pela volta de seus papais e não terão a mesma resposta. Chorei amargamente por dentro, sentindo minha dor de pai por todas as famílias interrompidas. E passei o dia assim, imbuído em tristeza, reflexão, inconformidade. Perguntando a mim mesmo por que tantas vezes temos que nos deparar com a tragédia para só então valorizar a vida maravilhosa que temos. Ao que parece, é a reflexão que move a todos nós hoje. É o que nos resta.
No mais, é pedir a Deus que conforte cada família, é publicar a solidariedade, tentar alguma forma de ajudar, de transmitir o carinho e algum conforto a Chapecó, à equipe, aos tantos jornalistas que perderam suas vidas trabalhando, ao oeste catarinense como um todo, ao povo trabalhador que terá de reunir forças para recomeçar. E depois de tudo isso, agora sim, agora eu digo com orgulho: não é mais apenas simpatia, a dor nos une. Sou mais um novo torcedor da Chapecoense, meu segundo time do coração. Força, Chape!


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