O último cigarro

É muito triste para mim constatar que passei mais seis meses sem uma postagem. Há muito que venho namorando ideias, mas sempre esbarro na impressão de que não ficaria bom. Talvez eu não seja mais o mesmo blogueiro de outrora, abismo este que existe entre mim e os jornalistas, essas pessoas iluminadas que escrevem diariamente com tamanha maestria. Queria tanto ser assim, como inclusive já fui em tempos alvissareiros deste espaço. Quem sabe agora com a proximidade do término da faculdade eu volte a praticar a escrita, ainda mais que meu trabalho de conclusão exigirá de mim justamente... escrever.

Por falar em jornalistas, a grande motivação que me arrancou da zona de conforto foi a partida do icônico Paulo Sant'ana. Como gaúcho, gremista e amante do futebol eu seria um pusilânime se não me manifestasse a respeito deste passamento.
Para o caso de algum leitor desavisado não habitar a porção ao sul do Rio Mampituba, explico com as minhas palavras quem foi este senhor sobre quem escrevo. Sant'ana foi o mais carismático jornalista gaúcho da história, isto corroborado por depoimentos de todos os seus colegas em diversas manifestações nas redes sociais e nos veículos de comunicação do Grupo RBS, empresa onde ele atuou por mais de quatro décadas. Gremista inveterado, fumante assumido e vice-versa. Foi o pioneiro na atitude de assumir publicamente seu time do coração na crônica esportiva e transitava pela rivalidade gre-nal com habilidade ímpar, do respeito à flauta, respeitado por gremistas e colorados igualmente.
Obviamente, dada à paixão clubística, a admiração da porção azul do RS pela sua pessoa era velada, retribuída e alimentada à base de uma relação quase que visceral. Cheguei, inclusive, a imitar os trejeitos do Sant'ana na minha adolescência em pequenos shows particulares para amigos, ainda antes mesmo da explosão de Duda Garbi como Santaninha, livremente inspirado em André Damasceno, o primeiro comediante que vi imitar Paulo Sant'ana ao vivo.
Recordo também dos tempos de infância, ele ainda um senhor de meia idade fazendo seus comentários no Jornal do Almoço acompanhado de seu inseparável cigarro. Este homem era raro e dividia opiniões como todos os gênios. Alguém haverá de discordar, mas considero sim Paulo Sant'ana um gênio contemporâneo. Li muitas de suas crônicas, esportivas ou não, e sempre me pareceu muito palpável a visão transcendental de qualquer assunto por ele abordado. Era um indivíduo que sabia simplificar a inteligência e torná-la de fácil compreensão.
O meu lamento não se resume simplesmente ao falecimento. Sant'ana já vinha acometido por uma enfermidade muito séria há bastante tempo, motivo este que o afastou da comunicação gaúcha já precedendo uma lacuna a ser preenchida, o que considero bastante improvável. Minha tristeza é sim pela paulatina partida de muitas personalidades donas de minha admiração, no jornalismo, na música, no esporte, na dramaturgia... nesta minha fase dos trinta e poucos anos, começo a experimentar a falta que as pessoas fazem por invariavelmente chegarem em algum momento ao fim de suas jornadas. É um fato inevitável da vida, eu sei, mas o sentimento de igual forma é indelével.
Fica aqui minha homenagem, admiração e reverência a Paulo Sant'ana, o maior gênio gremista que tive o privilégio de acompanhar. O melhor jogador gremista que nunca calçou chuteiras. Um torcedor referência, irreverente, marcante. Que permaneça conosco seu legado de gremismo inatingível e que vivamos este luto lembrando com carinho de mais uma personalidade que nos deixa.


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