sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A tiazinha do voador

Pois bem, comecei a malhar. De nada valeria a celeuma dos quilos a mais, se uma atitude drástica não fosse tomada. Já são cinco dias de re-educação alimentar, comendo de 3 em 3 horas, cortando doces e gorduras, caprichando nas saladas e frutas, o que, no meu caso, trata-se de um novo recorde Sul-Americano.
Essa veadagem toda tem sentido: contrariar os padrões da vida de casado, que supostamente torna flácidos todos os seus integrantes. Eu, no entanto, quero ser exceção. Poucas vezes na vida senti tanta determinação em realizar uma façanha, seguir firme num propósito e alcançar o resultado esperado. Quem me conhece um pouco melhor, sabe que costumo desistir dos meus projetos na primeira esquina, e portanto este ímpeto deve ser motivo de louvor, sim.
Ocorre que, porca miséria, toda vez que estou numa atividade bacana, tem um sacripanta pra atrapalhar o barato. Vejam o exemplo da academia, se não é para dar umas chineladas. Chego lá, todos os dias, feliz e pimpão da vida, toalhinha em punho, alongamento realizado à risca, pego a ficha com o treino programado e rumo para os aparelhos. Faço todos os exercícios bem concentrado, sem pressa, de modo a obter um melhor resultado.
Aliás, esse lance de fazer os exercícios sem pressa merece um parágrafo à parte: tem uns indivíduos que puxam aqueles ferros com tamanha voracidade, como se o mundo fosse acabar em duas horas! Sinceramente, eu não tenho formação em Educação Física, mas a impressão que passa é que aquilo vai esbodegar os músculos das pessoas, porque não é possível que malhação a jato dê algum sinal de melhora. Ontem, enquanto eu seguia minha série com parcimônia no primeiro exercício, uma alemoa fez o circuito em nada menos que cinco aparelhos. CINCO! Cacilda, que absurdo que foi ver aquela guria malhando, parecia que ia tirar o pai da forca.
Bueno, mas o que eu quero mesmo comentar é sobre a tiazinha do voador. Ora, este é o título da postagem. Nunca fui afeito aos entrementes da academia, mas aos poucos a gente vai pegando as manhas. É supino, convergente, remada baixa, inversa, contralto, tenor e baixo. Ih, misturei tudo. De todo modo, tem um aparelho lá que se chama voador. O voador é um negocinho legal pra caramba, um abre-e-fecha aparentemente fácil de executar, quase lúdico. O instrutor, quando foi mostrar a dinâmica do exercício, fez aquilo com tamanho desdém, que julguei que seria moleza.
Sentei no banco e fui sorridente executar a primeira série. Na sétima fechada, eu queria espancá-lo a pauladas, e só não o fiz por dois motivos muito práticos: primeiro, meus braços estavam em chamas, a ponto de caírem do corpo; segundo, os bíceps, tríceps, quadríceps e “pentahíceps” do cara são abissalmente superiores aos meus. Completei a oitava, a nona e a décima (bem, na décima eu fui só até a metade) fechadas como quem chega de uma São Silvestre, quase chorando de emoção. E era só o primeiro aparelho. Acreditem, eu preciso de muita motivação pra malhar, isso é sério.
Olha aí, fugi de novo da tiazinha do voador. Essa mania de desviar os assuntos eu puxei da vó Dilma, cobrem dela. A vó começa falando de tango e termina em tamanco. O fato é que, de tão assustador, o voador me cativou. Nos dias seguintes, cheguei sempre ávido para executar as séries no voador, tanto normal quanto no inverso (que é bem mais fácil, por sinal).
No segundo dia, porém, aconteceu algo diferente. Quando cheguei no aparelho, havia uma jovem senhora fazendo a sua série. Aguardei um pouquinho, mas ela não saiu. Resolvi fazer os outros exercícios e deixar o voador para depois. Contudo, à medida em que eu executava as demais séries, comecei a notar que a tiazinha ainda permanecia lá, parecia um dois de paus. Fiz mais dois aparelhos, e nada. Já estava quase desistindo, mas finalmente ela saiu e pude finalizar minha malhação no voador, que alegria.
Terceiro dia, e a tia lá de novo. Fiquei intrigado. “Essa mulher deve ter visto que eu curti o voador e tá fazendo pirraça”, pensei. Dessa vez, a desgraçada quase dormia entre uma série e outra. Ficava lá, com aquele olhar perdido, vendo a novela e pensando na morte da bezerra. Comecei, então, a contar os minutos. Por Deus, ela executava séries de vinte e descansava cinco minutos! Tá aí o motivo de continuar gorda, feia e parecendo um plissê! Aquilo foi me agoniando, tive que partir para os outros exercícios de novo, né, sem condições de ficar esperando aquela amontoada liberar o aparelho.
Fiz todo o circuito e faltava o maldito voador. Pensei em reclamar, mas ao mesmo tempo sou novo na academia, vai que alguém conhecesse a dita cuja e tomasse as dores. Tô a fim de malhar, não de fazer luta marcial e, pior que isso, sair de casa pra levar uma sumanta de laço. Vale ressaltar que o bairro onde moro agora é meio boca braba, e o seguro morreu de velho. Sendo assim, sentei num outro voador que tem ao lado e fui pro sacrifício.
“Como assim? Tem outro voador na academia?”, provavelmente você perguntará. Sim, tem, eu responderei. Só que, como direi, é um voador diferente. Ele é mais pesado. A cada fechada de braços, é como puxar um búfalo pelas ventas. Um búfalo morto. Tive que fazer, não havia outro jeito. Terminei a primeira série ofegante. Ao fim da segunda, bebi três copos d´água. Na última, quase liguei para minha mãe, só não o fiz porque havia deixado o celular em casa. Enquanto isso, a tiazinha seguia assistindo à novela, com cara de peixe morto. Quis fazer guisado dela, foi difícil conter os impulsos.
Ontem fui mais cedo, a fim de livrar-me daquele encosto. Ao chegar, procurei-a imediatamente e, hosanas aleluia, ela estava na esteira. Parecia um coala correndo, coitada. No entanto, havia um piazito abrindo e fechando o voador. Feito uma borboleta, o guri batia as asas compassado, dando a impressão de que estava num show da Ivete Sangalo. “Deve terminar rápido, enquanto isso vou fazer o primeiro exercício”, pensei.
De fato, acabou bem rápido. Quando olhei de novo, lá estava um carequinha voando. Por um momento, cheguei a cogitar uma conspiração contra mim. Mas, respirei fundo e parti para o segundo aparelho, dessa vez sempre de olho no calvo, que a tiazinha já dava sinais de cansaço após intermináveis cinco minutos de esteira. Nisso, relaxei por um instante, sei lá por quê. Foram segundos de desatenção que custaram caro. Num piscar de olhos, macacos me mordam, olhei de novo e o careca já estava noutro canto, enquanto a tia ajeitava sua toalha no banco do voador...
Saí correndo desembestado e, antes que ela pensasse em acomodar as nádegas no banco, desferi-lhe um pontapé no rosto, quebrando o nariz em três partes. Isso foi o que eu me vi fazendo numa projeção surreal. Na verdade, fiquei em choque, vendo que havia sido logrado novamente. Ensandecido, decidi cronometrar a saga da tia no aparelho. Faltavam cinco minutos para as seis da tarde quando ela começou. Às seis e vinte e cinco, enquanto eu finalizava o meu treino, incluindo o outro voador, que mais parece um moedor de carne, só então ela desocupou o lugar. Foram intermináveis trinta minutos, um verdadeiro acinte aos princípios da malhação.
Hoje eu vou mais cedo, ah, se vou. Fico feito estátua ao lado do aparelho, não arredo pé, mas hoje ela não me engambela. Nem que eu faça uma reclamação, arme um banzé ou compre um revólver, que essas questões às vezes precisam ser resolvidas à bala. Mas, por via das dúvidas, vou caprichar no alongamento dos braços. Passados quatro dias, já aprendi a não subestimar a astúcia da tiazinha do voador.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A dieta matrimonial

O ser humano, não raro, costuma ter atitudes pouco comuns ao seu gênero. Isso significa dizer que muitas mulheres têm atitudes masculinas, bem como vários homens agem feito donzelas das estórias dos Irmãos Grimm. Até demais, diga-se de passagem. Do jeito que está esse mundão velho de Deus, o que se vê de marmanjo dando uma de Rapunzel e balançando as tranças por aí é brincadeira.
De qualquer forma, dentro das atitudes aceitáveis, ou pelo menos denominadas pela sociedade como tal – ou todos os homens seriam clones do Clóvis Bornay – está a famigerada vaidade exacerbada, que nos últimos tempos classificou uma nesga da classe masculina como metrossexual. São estes indivíduos que depilam o corpo, passam creme e desfilam à beira-mar de sunguinha azul, mas ainda empunham sua espada em prol da perpetuação da espécie. Pessoalmente, tenho tantos pêlos que, se for perder tempo me depilando, além de ser deserdado pelo meu avô, ainda vou gastar uma fortuna em gilete.
Isso não significa, no entanto, que eu não alimente certas vaidades. Um gelzinho no cabelo, por exemplo, sempre vai bem. Manter as unhas cortadas (eu disse cortadas, não me venham com esse negócio de BASE), borrifar um extrato aqui e ali, vestir uma roupa a preceito, enfim, são costumes que, apesar de pouco gaudérios e rústicos, convivem pacificamente com meu lado brasino, macanudo e peleador das horas de lida de campo, onde não se sabe o que é mão e o que é casco.
O estopim de minha vaidade é o peso. É aí que aperta o sapato deste pecado capital que não me abandona há vinte e seis árduos anos. Engordar é pra porco, não consigo admitir. Sempre procurei manter o físico jogando futebol e, felizmente, vinha conseguindo sucesso na empreitada. Nunca fui uma montanha de músculos e só frequentei a academia durante três meses no ano passado, o que me confere um tipo franzino e, por que não dizer, esquálido.

Aí, veio o casamento.

Meus amigos, a lenda urbana é real: casar engorda. Não sei o que acontece na hora da bênção do padre, se é um castigo pelos pecados que não contei na confissão do dia antes do sacramento, ou se é o peso da aliança que dá início à obesidade, mas o fato é que, de outubro para cá, aumentei inacreditáveis cinco quilos. Eu, que há anos mantinha a marca de 70 quilos bem distribuídos em meu esqueleto esbelto, acumulei um saco de arroz no abdômen em noventa dias!
Surtei. Tenho que admitir, fiquei muito brabo mesmo. Decepcionei a mim mesmo, cheguei no fundo do poço. Quando subi na balança da academia e a maldita acusou 75 quilos, tive vontade de chorar de vergonha. Era como se todos os que malhavam naquele recinto olhassem para minha barriguinha saliente e gargalhassem desaforadamente, me apelidassem de Nhonho e tivessem vontade de chutar meu traseiro gordo.
A síncope, no entanto, não durou mais do que cinco minutos. Num arroubo de motivação advinda sabe-se lá de que canto do universo, indignei-me. Não, não posso admitir que minha esposa durma ao lado de um Jô Soares, que ganhe beijos do gordo e faça carinhos numa barriga adiposa. Decidi, portanto, defenestrar estes cinco quilos de meu corpo, expulsar a graxa à base de academia, dieta e reeducação alimentar. Enfim, essas atitudes de sexualidade duvidosa que permeiam o mundo atualmente, mas que já tá todo mundo aceitando numa boa, até porque, do contrário, dá cadeia.
O fato é que, fazendo uma análise dos primeiros meses de casado, realmente o oba-oba alimentar fez parte do nosso ninho de amor. Foram pizzas e mais pizzas, um verão regado a churrasco, cerveja e um punhado de guloseimas deliciosas que se alojaram impavidamente na minha pança. Este mito de que o casamento engorda deixa de ser surreal a partir do momento em que há um relaxamento generalizado, aliado àquela crença de que o tempo só passa para os outros e teremos eternamente o corpinho dos dezoito anos (caso a pessoa tenha sido magra nessa idade, é claro).
Tendo sido definitivamente afetado pela voracidade da balança, resta-me apenas mastigar por alguns meses aqueles alimentos integrais odiosos, comer frutas, verduras e deixar de lado, por enquanto, a carne gorda, a montanha de queijo catupiry que vem na borda das pizzas e o adorável pão com mortadela de cada dia. Só assim, agindo como uma mulherzinha paranóica, conseguirei recuperar meu orgulho de homem de setenta quilos. Mas, por via das dúvidas, como nesse mundo velho até égua velha anda negando estribo, vou manter a cervejinha. Porque a vida não tem graça se não tiver um certo grau de dificuldade.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Como incinerar suas últimas horas de férias

Tudo começou com o balaço que tomei no reveillón. Tá certo que foi épico, que a festa estava maravilhosa e talicoisa, mas é fato que o álcool costuma desregular o raciocínio de seus consumidores, levando-os a cometer certas insanidades cujos ônus são deveras inóspitos, cobrados a juros altíssimos e correção monetária desumana.
Findo o porre do Feliz 2012, o domingo foi aquele dia em que o cidadão passa mais atirado que alpargata em cancha de bocha. Estava eu lá, inalando aquela fumaceira aprazível do churrasco de aproveitamendo das carnes sobradas na noite anterior, não podendo nem lembrar do gosto da cerveja ingerida irresponsavelmente. Ela, que outrora fora tão saborosa... Permaneci ali, sabedor de que aquela ressaca ainda duraria intermináveis horas, até que o sono tomasse conta de meu ser e me levasse para outra dimensão, aonde os porres se dissipam ao som das harpas de querubins advindos d'algum canto desse mundão véio que Deus criou em seis dias, descansando só no sétimo, o que nos levou à condenação de fins-de-semana com míseras quarenta e oito horas de descanso.
Exatamente às nove e meia da noite de domingo, meu penúltimo dia de férias, adormeci. Ao que, às seis e meia da matina, para surpresa geral da nação e dos galos habitantes das cercanias do condomínio, despertei lépido e faceiro, como se nada tivesse acontecido. Acometido de um gauchismo impetuoso e bagual, cevei um mate e iniciei o dia assistindo às notícias do Bom Dia Rio Grande. Ao que tudo indicava, meu último dia de descanso seria aproveitado até a última gota, uma vez que eu esbanjava disposição para curti-lo.
O equívoco, no entanto, não tardou a surgir. Foi ao folhear a página do jornal em que continham as ofertas de animais para venda, onde repousava suavemente o anúncio de filhotes fofos e gorduchos da raça Collie, os peludões tipo Lassie, manjam? Pois é, cachorro campeiro e tudo mais, cresci o olho e decidi pela aquisição impulsiva, a fazenda necessita de um novo guarda desde o sumiço do meu velho amigo Aladim, que resolveu deixar os pagos talvez pelo olor do cio de alguma pinguancha canina e nunca mais encontrou o caminho de volta. Faço votos que esteja, pelo menos, grudado n'alguma percanta beiçuda Rio Grande a fora, pelo bem da continuidade da espécie.
Pois bem, procedi com a compra do filhote. Uma bolinha gorda que dá até gosto de ver, pelo menos enquanto dorme. Ou dormia. Sim, foi por aí que começou o martírio. Até dez da noite, o rapazinho regozijou de um sono paquidérmico, daqueles de estufar a pança e soltar o ar em prestações de suspiros agudos e profundos. Porém, quando a vizinhança e os casais de boa reputação resolveram dormir, o que inclui neste rol minha adorada esposa e eu, eis que o baita arregalou o grão dos olhos e resolveu que haveria festa na floresta.
Os primeiros capítulos, como todo filhote que se preze, vieram literalmente regados a muita urina e algumas tirinhas de fezes. Alie isto à primeira dose do vermífugo que eu havia administrado por via oral à tarde, e teremos o seguinte diálogo:

- Olha lá, Dani, a sujeira que ele fez! Eu te disse para não tirá-lo da caixa, agora vai virar numa imundícia a nossa sala! Limpa lá, por favor!

- Tá, tá, peraí... Ei, ele por acaso comeu massa?

- Não. Esses fiozinhos que tu tá vendo aí são o resultado do remédio de vermes que eu dei à tarde.

- (Danieli proferindo grunhidos de nojo, ânsias de vômito e risadas enlouquecidas, tudo ao mesmo tempo).

O sono abalroava-me estupidamente, fruto de meu despertar "muy temprano". Decidi que ignoraria a bagunça do cãozinho e dormiria normalmente em meu último dia de férias. Enquanto isso, a Dani ficou tentando entretê-lo com mantas peludas, ração e toalhas velhas. Forramos o lavabo com jornal e o abandonamos por lá à própria sorte, que o dia seguinte seria de labuta ferrenha, o famigerado Dia de São Pega.
Duas e cinquenta da manhã. Este foi o limite da paciência do menor abandonado. A partir daí, o que se ouviu foi uma sequência frenética de ganidos impacientes, que devem ter acordado até mesmo os monges do longíncuo Himalaia, se é que há algum monge por lá, no meio de tanta neve. Meu despertar lento levou a Dani a fazer as honras e, como macho da casa que é, tentar resolver a situação. Em quinze minutos, o bicho calou a boca e voltou a dormir. "Tchê bagual, casei com Virgulino Lampião, cabra hômi da peste!", pensei. Quarenta segundos após cerrarmos as pálpebras, a celeuma recomeçou. "Toleimas, casei com o Sassá Mutema mesmo", refleti.
Diante daquele impasse, na sofreguidão de salvaguardar ao menos o sono dos vizinhos, levantei da cama e arremessei o restante de meu descanso para as bandas de Saturno, reduto aonde aconchegou-se minha paciência uma hora mais tarde. O fato é que dei ração, água, tapinha na bunda, cantei Nana Nenê, tudo isso enquanto assistia a uma série de comédia no Universal Channel, uma tal de Will e Grace, que no fim das contas é uma baitolagem do caramba, com todo o respeito aos direitos humanos e à livre orientação sexual.
Naquelas alturas, tudo o que eu queria era que o bicho adormecesse uma horinha que fosse, para que eu pudesse ao menos pregar os olhos e chegar com um semblante decente no retorno ao trabalho. Bem, creio que não deve ser difícil concluir que isso não ocorreu, né? Às cinco da manhã, antes de ultrapassar a barreira da psicopatia e sufocar o inocente com um pano de prato, pedi à Dani que o embalasse mais um pouco e me concedesse uma última tentativa de sono reparador.
Foram intermináveis sessenta minutos rolando na cama. O sono já havia pego o primeiro avião com destino à felicidade, e só me restou apelar para Nossa Senhora do Guaraná Cerebral, esta santa que me salva quando durmo menos de cinco horas por noite e me mantém alerta até o fim do expediente, ainda que mais lento que tropeada de lesma, mas vá lá.
Às seis e meia da manhã, já de banho tomado e pronto para o batente, "que venha 2012" e aquela pataquada toda, levei nos peitos o tiro de misericórdia: enquanto eu partia no modo zumbi para o serviço, o pequeno infante, sadio, grimpante e desverminado, dormia impiedosamente em cima de uma manta velha de lã, parte dos artifícios infindáveis da Dani usados durante a madrugada nas tentativas de hipnose canina. Diante daquela cena desmoralizante, com o cérebro em frangalhos e o corpo virado num chapéu velho, restou-me apenas um último resquício de dignidade para admitir a derrota e batizar o cachorrinho: se chamará MADRUGA. Tenho até medo do panorama que encontrarei quando for em casa ao meio-dia para vê-lo.

PS: Não está descartada a hipótese de irmos hoje, após o expediente, até São Chico para entregá-lo de uma vez aos meus avós e, queira Deus, podermos recuperar o sono perdido.

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