A Introdução

Quando pingou aquela lágrima na minha mão, não dei tanta importância. Ora, a menina estava chorando, talvez pensando num momento complicado de sua vida, achei por bem que oferecer-lhe o meu ombro seria um gesto nobre. E, de fato, foi. Mais do que uma cena que se repetia comumente em nossos retiros espirituais, significou o início de uma das mais belas histórias que se tem notícia.
No início, conversávamos pouco. O contato intensificou-se somente a partir de uma eleição forjada que nos colocou lado a lado. Era o destino que continuava conspirando a nosso favor. A convivência diária me fez encarar com outros olhos aquele sorriso tímido, mas sincero. Uma guria de olhar compenetrado, típico de quem domina as exatas e possui concentração suficiente para tal.
Foi durante a Copa de 2002 que o encanto materializou-se no primeiro beijo. Deixei que Argentina e Nigéria se digladiassem em campo, e passei a dar mais atenção para aquele par de olhos verdes que fitava meu rosto sem parar. Trinta de maio do ano do penta. Decidi aproximar meu rosto lentamente para ver se era só impressão. Não era. Do contato dos lábios, floresceu a planta semeada meses antes a partir da lágrima que pingou na minha mão.
Porém, ainda havia muito chão para a verdadeira conquista. Quase um ano, para ser sincero. Enfrentei todos os meus fantasmas adolescentes para alicerçar e classificar o que de fato estava sentindo. Protagonizamos as primeiras conversas homéricas, tentando, juntos, buscar respostas que teimavam em não aparecer.
Até que, no dia dois de abril de 2003, outro importante passo foi dado. Novidade para ambos, fizemos o namoro à nossa imagem e semelhança, dois adolescentes imbuídos no mais terno amor, que encantou muitos e desagradou outros tantos. Lembro-me bem de um dia em que, à mesa com os pais dela, sua mãe disse que "estava ficando sério demais".
Declaração pertinente aquela. O primeiro ano e meio teceu uma simbiose que, entre idas e vindas, não conseguia se romper. A primeira tentativa deu-se dia dezoito de outubro de 2004, quando sofremos o primeiro tombo. Porém, não adiantou muita coisa. Bastava os olhares se encontrarem, que os corações atestavam a cumplicidade do amor. Continuavam as conversas longas, muitas lágrimas, vários sorrisos e quantos, tantos suspiros...
Até mesmo os momentos de silêncio eram eloqüentes. Quantas contas de telefone altíssimas minha mãe pagou para que eu ouvisse somente sua respiração? Minutos de mudez absoluta que mais pareciam séculos e hoje são somente segundos.
Cartas, muitas cartas, todas de próprio punho. Algumas perfumadas, outras salgadas pelas lágrimas que ali choveram, como diria uma certa bonequinha de seda, mas todas contendo o mesmo sentimento, o mesmo amor talhado a rigor por quatro mãos e dois corações.

***

Em vinte e um de maio de 2005, com a maturidade se aproximando a passos lentos, aconteceu outra tentativa. Um mês depois, provaram para si mesmos que resistiriam até mesmo à distância, algo que atualmente é essencial para qualquer certeza. Afloraram seus perfis com todos os percalços que enfrentaram. Dela, a dedicação, o zelo, a perseverança. Dele, a calma, a palavra certa, o otimismo. Traçavam planos, sonhavam juntos, criavam o mundo perfeito a partir do casal. Dava certo, como dava!
Durou até onze de março de 2007. Dali para frente, ruiu o castelo de areia. Quando a onda ia embora, pegavam suas pás e tentavam reconstruí-lo, mas a maré subia e desmoronava tudo outra vez. Nesse momento, constatou-se que maturidade ainda era algo ausente. Ciúmes, cobranças, impulsividade, falta de equilíbrio para lidar com os detalhes mais importantes.
Chegaram a pensar que o amor acabou. Distanciaram-se pela primeira vez. Toda história tem seu fim, com eles não seria diferente. Porém, o destino, Deus, ou seja lá o que for, algo conspira a favor desses dois corações. De todos os defeitos, quem sabe teimar em não desistir se transfigure numa qualidade indispensável. E, num novo encontro de olhares, apesar do muito que precisou ser dito, a resposta ficou estampada no velho brilho dos olhos.
O tempo modificou muitas coisas. Eram duas crianças descobrindo o mundo juntas, agora são adultos que ainda procuram respostas, mas já sabem diferenciar uma certeza de uma possibilidade remota. Acreditar é agora um verbo que possui um sentido tão diferente, desperta a racionalidade emotiva, a emoção racional...
E pensar que, ao fechar os olhos, recordam as fotos, os bailes, aquela vez que correram juntos na praia como nas novelas, do que aprontaram na salinha da Pastoral da Juventude, dos tantos carros que pesquisaram até encontrarem um perfeito, do cara que queria desmontar o guarda-roupa à mão, de descer escadas carregando sofá, geladeira.
Ou da festa de 15 anos que foram nos cafundós do brejo, da maneira voraz com que ele detonava uma tigela de mousse de côco, de quando ele a esperava na estrada da fazenda, de quando ela o esperava na rodoviária de São Miguel, os carros velhos, os empregos tenebrosos, vestibulares, das corridas para o banho quando se ouvia alguém abrindo a porta, a quem recebiam com sorrisos amarelos e rostos corados...

***

Hoje faz sete anos que eu vivo essa história. São 2557 dias, se contarmos os anos bissextos. Foi no dia 21 de outubro de 2001 que a lágrima citada na primeira linha deste texto pingou na minha mão. E, de todas as dúvidas que enfrentei nesse tempo, nenhuma chegou perto da certeza de que a pessoa que protagonizou todos esses fatos comigo é, sim, a mulher da minha vida. Precisei de muito para chegar até aqui e escrever este relato, mas não preciso de mais nada para amá-la eternamente.
E, se eu tivesse apenas uma afirmação para fazer em meio a isso tudo, diria que esse enorme texto pode ser considerado somente a introdução do que está por vir. Pois, quando termina uma novela, aí é que tem início a felicidade de seus personagens.


A todos que esperaram pacientemente pela minha volta, além de agradecer, agora esclareço que para mim o texto de número quatrocentros tinha um significado especial. Representa nada menos do que uma nova (velha) fase da minha vida que carrega consigo o que eu tenho de melhor.
Dedico, portanto, essa marca à única pessoa que me acompanhou durante as trezentas e noventa e nove vezes em que publiquei meus parágrafos, não importando que palavras eles carregassem. Texto após texto, sempre firme, sempre fiel leitora, cultivando um sentimento que o tempo me mostrou que não tem a menor intenção de morrer. Não sou de citar nomes, mas, Dani, essa pequena honraria é mais do que merecida por ti.

E, aos meus amigos: sim, estou de volta.

18 comentários:

  1. Não sou de comentar, apesar de não perder nenhum texto... Mas hoje é inevitável, o que esse texto fez comigo não tá na história. ^^

    Obrigada mais uma vez pelas palavras, por descrever com maestria cada momento que vivemos juntos. Tu me fez muito feliz, assim como vem fazendo ao longo desses 7 anos.

    Te amo!

    Bjoooooooooooooooo.

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  2. Uóoooooooon, que momento mais cute!
    Eu amei o texto.. é tão lindo ver uma história de amor que resiste a qualquer tempestade! Me dá até vontade de não desistir da minha... ^^
    Beijos...

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  3. Entrei tantas vezes por aqui para ver novamente suas palavras e deparo-me com um Antonio apaixonado e feliz por estar (re)vivendo um amor.
    Felicidades, todas. Você merece!
    Bjitos!

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  4. Nunca comento! E me sinto envergonhada em comentar esse, acho que é um momento de vcs, mas enfim, acampamento de casais na praia? hehehehhe

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  5. Muito lindo esse texto... Aliás, não poderia deixar de ser depois de tanto sentimento!

    Felicidades aos dois.

    Beijos

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  6. Bom menino. Felicidades e juízo.

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  7. Tu expôs tanto sentimento nas palavras que foi possível sentir o brilho dos olhos, a lágrima na palma da mão, as idas e vindas... Enfim.
    Não pude deixar de soltar um sorrisinho meio bobo ao ler das cartas "chovidas"... Esses detalhes escondidos sempre me fazem uma masagem no ego, sem tamanho.
    Que bom que você está de volta
    E mais apaixonado que nunca!

    Um beijo

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  8. Pronto! Já me fez chorar de novo...
    Não sei se pela proximidade, ou por ter presenciado muitos desses momentos que foram descritos neste belo texto, mas agora tenho certeza de que o verdadeiro amor existe!
    E sim: vocês nasceram um para o outro!

    Parabéns pelo texto, meu irmão!

    Abraço pra ti e toda felicidade do mundo para o casal.

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  9. Uhuuuu! Que bom que está de volta! Coisa mais linda esse post, nem senti de preguiça de ler...Li todinho, todinho...
    E vc que estava descrente do amor, se mostra um dos "últimos românticos"! Parabéns pro amor de vcs! Lindo mesmo! Se resistiu a tudo isso, é pq é amor de verdade!
    Beijão!

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  10. Que história bonitinha! Um amor lindo. Consciente das dificuldades (pois pelo post vi que já enfrentaram muitas)e por isso mesmo sabedor do fato de quem nem sempre os momentos serão perfumados, mas o que realmente importa é usar os momentos nem tão perfumados assim como respaldo para os bons aromas que ainda estão por vir. Desejo muita felicidade a vocês! E seja bem vindo de novo!
    Cheiro grande e fica na paz.

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  11. Mazáááá!!!
    É um texto pra casar, rss!!!

    Aproveitem meninos, sejam felizes!!

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  12. Belo Texto cara! ... otimo mesmo ... o jeito que vc desquevreu cada momento foi o que marcou mais ... é e isso é apenas a introdução do que a por vir ^^...

    Abras! e seja feliz, a cada momento que a vida nos proporciona!

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  13. Que bonito! Quando é amor de verdade resiste a tudo, ou quase...

    :*

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  14. Leio sempre teu blog, mas nem sempre comento. Fiquei chateado por parar de escreve. Tu sabe que adimiro profundamente teu talento.

    Esse texto, é a prova disso. Simplesmente magnífico!
    Eu, como parte da tua família, acompanho mais de perto este casal de compadres desde 2005, e nunca perdi as esperanças quanto a um retorno. Felizmente ocorrido.
    Acho que em breve poderei cumpri a minha promessa que ainda esta de pé.
    Parabéns a ti e a Dani.
    Felicidades!

    Um abraço

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  15. Ó, me emocionei. Linda história, belamente escrita.
    Feliz por ter retornado!
    Bjs e felicidades procês.

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  16. E desde o seu último texto que passava por aqui quase todos os dias para ver se você tinha voltado a postar os melhores textos.
    Desse nem se fala.
    E a frase que você gosta diz tudo, 'Quando a gente ama, simplesmente ama! É impossível explicar...'
    Estou aqui com um riso bobo nos lábios.
    Viva o amor!

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  17. Que felicidade! QUE MOMENTO!
    Tanto passei por aqui pra pescar tuas palavras e agora, depois de um tempinho, encontro este post sensível e ao melhor estilo possível. O do amor. Que lindo. E que bom saber que estás bem e feliz. É o suficiente saber.

    BEM VINDO DE VOLTA AMIGO!!!

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  18. Ai que lindo!
    Sim! O post quatrocentos foi mais do que especial. E desejo mais felicidade pra essa história de vocês, viu???

    E fico, IMENSAMENTE FELIZ COM A TUA VOLTA, VIU?

    Um beijão

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