A unha preta

Sobrevivi. Pela obra da graça divina, um dentista benfazejo fez a caridade de arrumar as borrachinhas que eu engoli junto com os grãos de milho verde. Digo borrachinhas, no plural, pois nem eu tinha visto que eram duas as fujonas. E, claro, ele colocou outras novas. Nem sei se as antigas conseguiram superar os ácidos malignos que meu sistema digestivo libera.

Bem, mas há coisas que não há profissional que resolva.

Explico.

Eu jogo muita bola. Falo no sentido quantitativo, e não no qualitativo. Já fui um bom jogador de futebol, mas atualmente enfrento uma fase de franca decadência, beirando a sarjeta dos gramados e quadras. Digamos que, em meio aos ruins, eu me destaco e apresento uma réstia de qualidade; entre os bons, eu inexisto.
Dito isso, sigo com o raciocínio de que pratico o esporte bretão diversas vezes por semana. Três, para ser mais exato. Dessa forma, sofro algumas lesões, principalmente depois que a adolescência deixou de ser uma realidade, para virar apenas uma vaga lembrança de tempos passados. É joelho que dói, canela que incha, pés doendo, respiração arfante e as pernas que já não respondem mais aos movimentos ágeis de outrora (pausa para suspiro saudosista).
Dentre as muitas lesões que desenvolvo, uma se destaca pelo aspecto pitoresco: uma unha preta. Voltimeia, no pé direito, a unha do dedo indicador adquire coloração afro-descendente. Eu corto, furo a bolha de sangue, providencio o nascimento de uma nova e alva unha, mas não adianta. Bastam algumas novas partidas, várias batidas na bola e, surpresa, lá está a unha novamente parecendo o Roque Júnior. Não chega a doer, nem sinto que a danada preteou. Ela apenas fica preta, e pronto.
Até aí, beleza, se não incomoda, deixe que a bichinha conserve a cor que melhor lhe convier. O problema é o aspecto estético. Pô, unha preta é chinelagem! Pelo amor de Deus, nada contra a cor, não é isso. É que, bah, convenhamos, dá um aspecto desagradável, né? Pra andar de chinelo, então, que tristeza! É o opróbrio!
Pois bem, hoje eu tive prova na faculdade. Um calor putaqueparilmente acentuado, daqueles que me arranca sorrisos por constatar que o inverno está lá no outro hemisfério. Até calcei meia, tênis e bermuda. Porém, todos os poros das minhas pernas estilo Tony Ramos (sim, pareço um símio da cintura pra baixo, coisa mais tenebrosa) organizaram um motim e desandaram a suar a cântaros, como as cataratas do Niágara.
Democrático que sou, abdiquei do tênis e calcei os chinelos. Dane-se, ninguém perceberia minha unha destoando das demais. Concentrei meus pensamentos em boas vibrações, meditei mantras, rezei ao santo das unhas, que nem sei se existe, e parti para a escola.
Mas, não adianta, mania de perseguição é pura bucha. Bastou pôr o primeiro pé no recinto - o direito, portador da unha de ébano, por sinal - que uma gota de suor povoou minha testa. Foi como se todos os olhares se voltassem para o meu pé, uma sensação deveras desconfortável. Contraí todos os carpos, metacarpos e policarpos do lado direito, respirei fundo, estufei o peito e, impávido, dirigi-me à sala de aula. Novamente, ao cumprimentar meus digníssimos colegas, juro que pude ouvir alguém comentando algo parecido com "olha lá, que nojo, a unha dele tá preta". Fechei os olhos, apertei-os com afinco e, ao abri-los, tudo cessou. Mancando e escondendo ao máximo meus dedinhos, acomodei-me e esperei minha prova. Lá pelas tantas, a professora olhou pra mim e disse:

- UNHA PRETA! UNHA PRETA! LERO-LERO!

Esfreguei os olhos, mal podendo acreditar no que ouvia. Atônito, fitei-a com humilhação e fiz cara de choro. Ela, então, repetiu:

- Antônio, tua prova! Podes vir buscar, por favor?

Os efeitos obscuros de minha unha provocaram alucinações, que barbaridade! Furtivamente, sem deixar aparecer sequer uma pontinha dela, apanhei minha prova como um gato espiado e meditei novamente antes de dar início aos exercícios da avaliação.
Fiz tão rápido, que devo ter batido o recorde Sul-americano. É bem verdade que estava fácil, mas tudo o que eu queria era terminar logo e sair correndo para meu quarto, trancar a porta, pegar um machado e esquartejar essa maldita unha. Me despedi da professora (desconfio que ela ria de mim quando saí) e procurei a saída o mais depressa possível. Mas, para meu desespero, de tão ágil que fui na prova, algumas colegas ainda chegavam à escola.
Foi um Deus nos acuda. Quiseram ver as respostas, copiaram tudo, levaram minha prova para o banheiro! Quis morrer, cavar um buraco para enfiar o pé, enrolar o dedo com papel higiênico, qualquer coisa que escondesse o negrume de minha unha, mas nada pude fazer. A cada mulher que entrava no banheiro, eu formava um quatro com as pernas, feito um ébrio em cheque, tudo para esconder meu trágico segredo.
Demorei, mas consegui chegar ao carro com algum sacrifício. E agora estou aqui, desabafando com vocês. O cortador de unhas já está de prontidão aqui na escrivaninha e, depois de teclar o último ponto final, darei início à execução desse amontoado de células que me fez passar por maus bocados. Só então, depois de findo o serviço, poderei calçar meus chinelos e transitar tranqüilamente, sem alucinações, sem desespero. E, por via das dúvidas, é melhor passar uns meses sem jogar futebol.

18 comentários:

  1. Uma vez, numa Copa Sabiá pisaram no meu pé, aí minha unha do dedão também ficou preta. Que coisa mais feia mesmo, ainda mais num pé de mulher... hehehehe.
    Só que quando eu queria usar chinelo eu enganava, coloca um band aid no dedo. uashasuashas. Bonito também não ficava, mas pelo menos tapava a unha feia. =)

    Muito engraçado o texto. Gostei!

    Beijooooo!

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  2. Escrever(muito bem) sobre cupim e milho verde ,e agora,a unha preta, é uma tarefa pra poucos. Eu mal posso esperar o personagem do próximo escrito. Meus parabéns!

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  3. Você já foi no médico?
    Até onde sei, esse preto surge pela pressão que o jogar futebol causa na unha... Mas vai saber se tem algo a mais que você não sabe?
    Bjitos!

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  4. Amigo, preciso dizer que as ilustrações - fora as cômicas, claro - que teu texto me causou, foram um tanto quanto...como dizer... um tanto quanto...rs
    Bom, digamos que causaram efeitos não muito gratos ao meu sensível e amado estômago...rs
    (Estou receioso em sonhar com a dita cuja - A UNHA PRETA - esta noite!)
    Por via das dúvidas, farei minhas sinceras e fervorosas orações pra que isso não aconteça!rs
    ------------
    Espero que tenha cumprido a promessa e feito uso do CORTADOR!!!

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  5. Cara, usa um band-aid! Qual o problema? Enrola no dedo e vai embora. Se perguntarem diz que cortou em alguma coisa... ;)
    valeu pelas boas vindas! Espero que vc não continue sumido, amo demais os seus textos!

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  6. Ai que saudaaaaaaaaaaaade de tu.

    ;*

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  7. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    adorei!

    o que faltou de cor no resto do corpo, sobrou no dedão!
    :D
    huhuhu
    :D

    :*

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  8. Oi, amigo!
    "Vorrrrteiii"!
    Vooltei a escrever...e mudei um pouquinho o Vermelho Pitanga.

    E vejo que vc tb não aguentou e voltou...muito bem!

    Um abraço.

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  9. Antonio NÃO SOME!
    O que eu faço sem seus posts pra me fazer rir?

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  10. A unha só fica preta quando machucamos a pobre coitada, o que deve estar acontecendo é que você jogando deve estar dando umas porradas nela, mas com o calor do jogo não percebe, só percebe o roxo depois. Porque na hora que machuca dói.

    Bjo

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  11. Eu realmente estava com saudade desse teu humor, até mesmo para tratar de uma unha preta, menino!
    Beijos.

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  12. Sumido!
    Vê se passa, ao menos, para nos desejar boas festas. ;)
    Bjitos!

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  13. Racheeeei de rir! uaehueahea. Mas é sempre assim, quando tem alguma coisa nos incomodando, sempre pensamos que todo mundo repara.

    :*

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  14. você também anda sem textos novos?


    saudades dos teus comentários engraçadinhos.


    eu também ando sumida, perdoe-me.



    bjo*

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  15. Eu ri!!! heuheuheuhuehuehueh
    Muito bom post Antônio!!!
    Ganhou um visitante assíduo. Abraços!

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  16. huahua...eu também tinha uma unha preta... caiu recentemente...foi uma porta de armário que caiu no meu pé em Paris. chique, não?

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