A emboscada

O grande problema de se manter o blog em atividade é que o tempo vai passando, a inspiração não vem de jeito nenhum e, quando vem, basta ficar quietinho num canto cerca de três minutos que ela passa. Só que aí eu me irrito em saber que o blog tá aqui, atirado feito um pelego velho, e passo a granjar assunto em qualquer brejo, tal qual uma galinha curiosa num entardecer de verão. E acabo voltando, mesmo a contragosto.
É que, lhes confesso, está difícil escrever sobre humor. Rir continua sendo o melhor remédio, mas todo o contexto anda tão "piada sem graça" que até parece falta de respeito ficar inventando gracinha só pra fazer média. Seja no macro ou no micro, parece que pra onde se olha brota tragédia, exploração, injustiça, morte, incerteza, medo. A vida vai sim continuando, a gente continua sim sorrindo, mas daí a transformar tudo isso numa crônica que valha algum vintém já são outros quinhentos. Ou, quem sabe, seja a rabugice batendo à minha porta cedo demais, talvez tudo esteja igual a antes e eu mesmo ande um bocado azedo. Não se pode descartar essa hipótese.
Dando rédeas ao pensamento, vim hoje tergiversar neste pedacinho de Terra do Nunca sobre uma descoberta que me tomou quase uma década de existência e reflexões adjacentes. O Facebook é uma emboscada. Armadilha. Embuste. Engodo. Chiste. É uma cilada, Bino. Nenhuma novidade até aqui. Aliás, muito provavelmente nada do que eu venha a escrever nos próximos parágrafos represente de fato algo comparável à descoberta da pólvora, mas é que está tão latente diante dos meus olhos que não consigo pensar noutro tema neste momento.
São nove anos de perfil construído. Amigos aos borbotões. Gente que nunca vi, que pouco vejo, que mal converso. Todos acompanhando a minha vida. Curtindo o que posto. A curtida que por si só é um dos atos mais vazios que pode existir, pois vem acompanhada de um profundo silêncio. Existem três tipos de curtidas: a dos teus amigos do convívio, que tu sabe que estão curtindo porque realmente gostaram; as daquelas pessoas que nunca te viram, mas curtem por uma simples questão de modus operandi; e a dos invejosos, que mesmo se mordendo de ciúmes de uma foto sua na praia, na rua, na chuva, na fazenda, curtem para não perder a classe. Arrisco nessa classificação porque já fiz uso das três facetas aqui descritas.
Essas fotos, por sinal, são a mais pura representação de ilusão de ótica que se pode ter notícia. Noventa e nove por cento do que é publicado é apenas fruto de uma imaginação bastante fértil de seu autor, que ganha enredos ainda mais fantasiosos advindos da cabeça de quem contempla. Na foto, todo sorriso é genuíno, todo relacionamento é feliz e estável, os sentimentos são pulsantes e vigorosos. Do outro lado da tela, moribundo, o vivente está afoito por um naco de atenção. Que é suprido por uma curtida, quiçá um comentário. É como tentar segurar areia entre os dedos.
Rapaz, e os comentários? Eu ganho úlceras por querer dizer a verdade e não poder. Toda postagem, eu disse TODA POSTAGEM, sempre desperta um pensamento maquiavélico em quem visualiza. Raríssimos são os casos em que alguém tem a audácia de ser sincero, principalmente nos supracitados casos de amizades inócuas, onde o vínculo é unicamente virtual. Ou vai me dizer que você nunca colocou a mão na boca pensando "caraca, que vontade de escrever isso e aquilo e talicoisa e colocar fulano em seu devido lugar". Somos todos juízes na seara de Zuckerberg.
No Face, todo mundo tem razão, mesmo que se prove o contrário. Somos caridosos, estudiosos, autênticos, felizes, seguros. Na vida real, até pra murmurar um cumprimento se acha dificuldade. Tem uma menina na faculdade que dia desses curtiu uma postagem minha, um meme (a seguir falarei dos memes). No entanto, quando me encontra nos corredores da faculdade ela olha pra qualquer canto, menos pra mim. Só fala quando é estritamente obrigada. E nem fala, grunhe. É pavoroso. Queria um dia poder dizer a ela "escuta, fulana, por que diabos é impossível sair da tua boca um cumprimento e, ao mesmo tempo, temos uma ~amizade~ no Facebook?". Mas, confesso, tenho medo que ela me dê uma dentada na jugular e eu venha a falecer em questão de segundos.
Falando dos memes, são o legítimo queijo na ratoeira. Eles te ludibriam a postar alguma porcaria. Logo eu, que sou viciado em memes. Daí aparece alguém pra chamar de retardado quem brinca de "Logo eu". E vem um terceiro fazendo textão. O quarto classifica a briga entre direita e esquerda. O quinto põe a culpa nos políticos. O sexto curte e compartilha. Se passasse o caminhão do lixeiro duas vezes por semana na minha timeline, teríamos de exportar lixo virtual para Saturno.
E agora, só agora, posso entrar na emboscada propriamente dita. Porque estou aqui me queixando, sendo ranzinza e também eu poluindo a linha do tempo alheia, mas seria tão simples: bastaria deletar a conta. EIS O BUSÍLIS. Não dá pra deletar a conta, meus caros. Por mais que noventa e nove por cento seja dispensável, sobra aquele um por cento (que não é vagabundo). Esta pequena parcela corresponde a algumas facilidades que inegavelmente o Face ajuda a organizar, bem como saber como está aquele amigo querido que mudou-se para Bangladesh e não visualiza as mensagens do Whatsapp. Isso até que ele poste um meme... mas vá lá, mesmo assim a gente curte.
Bueno, se não dá pra deletar, então vou fazer uma limpa nos meus amigos. TOLEIMAS. Cara, não tem como. A menos que eu me tranque num quarto escuro com um refri dois litros e alguns pacotes de batata da onda, fique sem vida social nenhuma durante três dias e três noites e faça minhas necessidades fisiológicas num singelo penico, digo e afirmo que é humanamente impossível ficar filtrando quem presta e quem não presta. Lá uma vez que outra é até possível de deixar de seguir alguém ou desfazer uma amizade, mas parece que a multiplicação dos indispensáveis é muito maior. Pra cada amigo que deixo de seguir, surgem cinco postando fotos de comida, todas as suas ideologias intocáveis e selfies, e mais selfies, selfies, selfies e selfies. Pra que se olhar no espelho quando se pode tirar uma selfie, né?
Não vou nem entrar no mérito do próprio Facebook descobrir tudo o que você poderia de alguma forma estar interessado e desandar a oferecer tudo o que você em algum momento pensou que poderia comprar, desde um par de tênis até um porquinho-da-índia. Existe um nome no marketing digital para isso, mas não quero lembrar. Até porque amanhã estará lá na minha timeline "trabalhe com isso". Sei também que existem métodos de se filtrar melhores amigos, interesses, que dá pra criar uma conta nova e começar do zero e, claro, dá pra desistir do Facebook. Já tentei tudo isso, mas é como tentar cancelar um plano junto à uma operadora telefônica, fui vencido pelo cansaço.
Por tudo isso e por tudo mais que possa existir para se falar a respeito é que digo que trata-se de uma emboscada. A armadilha perfeita. Caí nela feito um patinho, você também provavelmente já foi fisgado. Se não foi, parabéns, resista bravamente. E se eu estiver rabugento demais, não curta, não compartilhe. Deixe de me seguir. Desfaça a amizade. Juro que não fico brabo. Agora, por tudo que é mais sagrado, se me encontrar em qualquer corredor, ou até na rua, dirija a mim um cumprimento. A boa educação não permite que se ignore um conhecido assim, na cara dura. Se não dá certo no Facebook, que ao menos ao vivo não nos falte humanidade e fino trato.

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