O Guacho

Quase todo ano tem um terneiro guacho lá na fazenda. Morre uma vaca e fica o pobrezinho lá, berrando de fome, dependendo da mamadeira pra sobreviver, uma lástima. A gente até cuida deles, dá o leite, ajuda no desenvolvimento, mas não é a mesma coisa. Os pobrezinhos ficam barrigudos e perdidos no mundo, dá dó vê-los no meio dos outros bezerros, todos com suas mamães, e eles lá, perdidos, teatinos, largados no mundo por causa da maldade do destino.
Com o tempo, ficam mansinhos que até dá gosto de ver. Um guacho sempre sabe a hora certa de mamar e vem correndo quando nos enxerga arrumando a garrafa de leite. Mesmo assim, sinto muita pena.
Porém, às vezes ocorre o processo inverso: morre o filhote de alguma vaca que fica ali, berrando, cheia de amor e um úbere transbordando leite. O que se faz, então? Se você pensou em "adoção bovina", bingo! Em poucos dias, conseguimos uma nova e maravilhosa família feliz.
Me atenho, contudo, ao guacho sem sorte, aquele pra quem não sobra vaca alguma, apenas uma garrafa fria, cheia de leite amornado no fogão e com um bico de borracha na ponta. Nisso se resume a mãe dele. Vida cruel, né?
Só que, pelo menos na minha ótica, o buraco é mais embaixo. O desenvolvimento dos guachos não se dá pela falta de leite. Claro que eles mamam bem menos que os outros, com as tetas de suas mamães ali, disponíveis a qualquer hora do dia. Falta carinho, essa que é a verdade. Nada pode ser mais arrasador para um guacho, judiado pela sordidez da vida, do que ver seus amiguinhos sendo amavelmente lambidos por suas genitoras bovinas, onde aquela baba simboliza todo o zelo que um terneiro merece receber. Todavia, para os eles não existe lambida alguma, nem gestos de carinho, nem tetas, neca de pitibiribas. Ou se gruda no bico de borracha, ou dá adeus ao mundo.

Quanto mais blogs eu visito, mais eu lembro dos guachos que já cuidei. Todo mundo tá namorando, flutuando em amores e romantismos, dá até gosto de ver. Nessas horas, eu sei o que sente um guacho. O peito aperta, a garganta dá um nó, falta o carinho.
Eu saio todos os finais-de-semana, faço minhas festas e, claro, de vez em quando acontece um envolvimento, conheço a menina, troco uma idéia e termino a noite apaixonado. Daí, vou pra casa, durmo, e no outro dia a vida segue como se nada tivesse acontecido. E olha que eu sou daqueles que não ignora, procura contato, faço amizade com a guria, enfim, estou longe de ser aproveitador. Acontece que nem sempre a recíproca é verdadeira. Aliás, quase nunca.
Sou, portanto, um guacho sentimental. Normalmente, eu resisto, levo numa boa, fazer o quê, né. Mas, pelo amor de Deus, é muita gente apaixonada pro meu gosto. O cara já tá carente, à base de bicos de borracha aqui e ali, e ainda tem que ler as maravilhas do amor? Bah, não há quem agüente quieto. A vida de solteiro é ótima, mas um pouco de carinho não faz mal a ninguém.

Enquanto isso não acontece, resta a indócil mamadeira de leite amornado no fogão. Vida de guacho, e pronto.

17 comentários:

  1. Tive que ir no link do Wikipédia pra ver o que é um guacho.
    No sentido real, nunca convivi com um. Se eu já morria de pena de ver uma vaca que seria morta, imagina então uma com um bezerro!
    Ah, guri, existe guacha? Se existe, eu sou uma guacha sentimental também. Me sinto uma mal-amada pelo jeito como eu invejo os textos apaixonados por aí. É muita gente apaixonada pro meu gosto também. Não que a vida de solteira seja ruim, mas carinho e envolvimento seriam bem-vindos.
    Desculpa, mas é bom ver que tem mais alguém assim.
    Beijo!

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  2. Bem, sempre há o lado positivo: o Grêmio é líder isolado do brasileirão, não é? Feliz no jogo...
    Abraços, Jr!

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  3. Então o remédio é ou tu arrumar alguém pra te "adotar" ou se agarrar no bico de borracha mesmo.

    Adorei o texto da quase mulher da vida, e o do "meu guri" foi muito tri também. Digo, como muitas vezes disse antes, que tu escreve cada vez melhor.

    E oo, to sentindo tua falta no ensaio. Aconteceu alguma coisa?

    Anyway,

    Abração!

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  4. Vamos dar as mãos, querido. Eu também visito esses blogs e dá aquele aperto. Não que eu nao goste de ser solteira, não que eu não aproveite... mas é como você disse, eu é que não queria ser um guacho sempre! rs
    Bjos

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  5. Ô guri...
    É ruim mesmo... E sei bem como é isso, pois não foram poucos os anos em que a solteirice me bateu a porta... Mas, agora ela já foi. Mas não vou ficar aqui falando, pois é sacanagem, né?

    Mas ei... Como eu sempre digo, pode demorar (demou 5anos pra mim), mas quando aparecer, vai ser aquele alguém pra lá de especial e que vai ter carinho de sobra e mais um pouco pra te dar!!!!

    Um beijão pra tu!!!!!

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  6. Sabe de uma coisa? Eu percebi que a fase que passei com invejinha dos casais felizes me serviu de aprendizado. Nada como a solidão para aprendermos a valorizar a companhia.

    Bjs~~

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  7. Tudo tem seu tempo. Inclusive as dores.

    Bjo

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  8. Meu cérebro passou por diversoso momentos de confusão, pois insistia em ler "gaúcho" em vez de "guacho".
    Entendo o que é essa falta de um pouco de companheirismo. Não que a condição de solteiro seja ruim (aliás, ela tem várias vantagens), mas ter alguém com quem compartilhar é bom de vez em quando.
    E torço para que você encontre!
    Bjitos!

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  9. menino, você tá carente, né?

    você é um fofo. logo vai encontrar uma tampa pra tua panela.

    não se preocure, querido.


    bjinho*

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  10. eu também estava lendo gaúcho :-|

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  11. Chora, bezerro desmamado!
    O carinho certo chegará na sua hora, nem antes nem depois.
    Encontrar alguém com quem dividir o tempo é assim, digamos, uma espera danada, mas qualquer tempo depois será curto.
    Boa sorte!

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  12. Cara, vc consegue fazer uma analogias, umas comparações tão impensáveis...

    Saudade daqui!
    òtimo post

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  13. Comentando teu coments: Pois é, 25 anos já. Mas todos me dão essa faixa etária, 20, 21. O bom é que não vou ficar com cara de velha logo. heheheheh...
    Beijão, menino!

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  14. Putz, eu não aguento mais ver tanto amor também!! hahah. eu te amo pra cá, amor da minha vida pra lá..ékaaaa..haha
    A vida de solteiro é ótima, mas um pouco de carinho não faz mal a ninguém.
    "A vida de solteiro é ótima, mas um pouco de carinho não faz mal a ninguém." concordo em todos os sentidos!!! Tõ "guacha", hehe
    Abração querido

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  15. Realmente meu querido: "love is in the air" ¬¬
    Isso me incomodava um pouco, mas sei lá, a gente vai ficando véia e vai se conformando...
    Não, não isso não é verdade!
    Te lembra que esses dias, eu estava choramingando por estar solteira e carente?!
    Pois é, cansei de chorar um pouquinho...acho que nós, os titios, temos que prestar mais atenção para ver o que está nos impedindo de nos apaixonar!
    E pelo que eu li nos outros comentários, nós não somos os único "guachos" na face da Terra!

    Valeu guri!

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  16. Que grande teoria essa não?
    É difícil sim ver que o mundo namora enquanto a gente procura.
    Ontem mesmo ouvindo Radio Atlantida um cara falou pro Dudu (personagem) o quanto estava feliz por estar namorando.
    E então nessa hora pensei: taí, acontece pra tanta gente...
    Mas querido será que não é o medo do apego que estraga um pouco as coisas.
    Eu sou suspeita pra falar, ANSIOSA como sou e PREMATURÍSSIMA me afobo, meto os pés pelas mãos, e acabo estragando tudo...
    Enfim... nem tudo são rosas e mesmo as rosas tem espinho...
    Resta é relaxar... (e se gozar melhor, risos)...
    Bjo grande, adoro vir aqui, me sinto em casa.

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  17. Mas bah, Tchê! Concordo contigo, ás vezes é bom mesmo estar solteiro, mas de vez em quando faz falta um aconchego mais carinhoso.

    A propósito, estamos com saudades índio véio. Quando retornas?
    Abraço.

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