Extrañar

Escrever um texto desse tipo costuma despertar um misto de sentimentos desconexos em minha mente. É por isso que, normalmente, desisto deles antes mesmo de tentar rascunhá-los, pois causam uma confusão enfadonha de idéias e percepções. Além disso, fica difícil refletir de maneira mais séria e aliar uma pitada de humor, ingrediente clássico deste blog e característica que eu gosto de conservar a maior parte do tempo.
Hoje, porém, é um daqueles dias em que dá um estalido no cerebelo, decorrência do acúmulo de tantos assuntos arquivados no inconsciente e que clamam pelo desabafo. Sendo assim, serei maleável e tratarei de jogar nos próximos parágrafos, sem a mínima intenção de coerência e conexão entre eles, tudo o que tem borbulhado aqui por essas bandas. Será uma espécie de libertação.

Há duas semanas, recebemos a visita de um coral do Uruguai, mais precisamente vindo da cidade de San Carlos, localizada no departamento de Maldonado. Trocando em miúdos, longe pra cacete daqui. Foi a segunda vez que tive a oportunidade de conviver dois dias com eles, mas admito que a segunda experiência foi triplamente marcante em relação à primeira.
Me preparei para falar espanhol durante várias horas e constatei que, de fato, se alguém me jogar n'algum canto da América Latina, de fome eu não morro. Valeram à pena todos aqueles trabalhos de Língua Espanhola que eu fazia sozinho enquanto meus colegas jogavam conversa fora em português, e bem mal falado, por sinal.
Não vou aqui dissertar sobre como foi a estadia dos chicos por aqui. Tampouco contarei minhas peripécias hablando español. O que passa é que, após vê-los voltando para casa, passei a refletir sobre um tipo diferente de saudade, que é a que sentimos quando sabemos que é possível que nunca mais voltemos a ver algumas pessoas. Todos foram tão intensos, tão receptivos, que entender o fato de estar a mais de uma fronteira de distância não me pareceu assim tão fácil de assimilar.
É diferente sentir a falta de alguém que você sabe que, cedo ou tarde, voltará, ou que estará ao seu lado daqui a algum tempo. Por mais que muita gente não faça distinção, confesso que passei alguns dias com o peito apertado por saber que a vida é, às vezes, tão ingrata, para não dizer quase sempre.

Desse ponto, saltei para o fato de que a minha vida - não sei a de vocês - é muito parecida com o outono. As folhas do calendário vão caindo, caindo, vem o vento e leva todas elas, secas, para longe. Eu sei que tudo se resume àquela velha máxima da insatisfação que eu carrego incessantemente, entretanto a figura da árvore perdendo mês após mês marcou-me de maneira tão emblemática, que cheguei a cogitar a possibilidade de escrever só sobre isso, sobre o quanto é curioso viver assim, perdendo meses, alguns quebradiços, com aquela impressão de que nada de valoroso foi realmente vivido.
É esse saudosismo que me persegue, morde-me as canelas feito um guaipeca indignado com o tamanho insignificante que Deus lhe deu, rosnando o tempo todo como um velho rabugento. Percebam que minhas referências são assumidamente ranzinzas e sorumbáticas, porque nem só à base de sorrisos metálicos consigo sustentar meus dias. Arrisco a dizer, inclusive, que enquanto não acordar respirando o ar puro das coxilhas sem me preocupar com o relógio, ou, com todo o respeito que lhes é devido, com a puta que pariu, serei um beduíno insatisfeito vagando errante no deserto da desilusão. O que isso tem de poético, tem de desprezível.

Mas, como nem tudo é outono entre solstícios e equinócios, vejamos o exemplo da queima de campo. Aos amigos ecologistas que porventura passarem os olhos de soslaio por estas linhas, sei muito bem que queimada é crime, polui, é proibido e talicoisa. Mesmo assim, ainda que me julguem, crucifiquem e me joguem aos leões, usarei a metáfora para explanar meus pensamentos.
Quando a gente risca um pau de fósforo na macega seca, de fato, a fumaça é sufocante, fica tudo virado num breu total, retinto. A paisagem não fica nada aprazível, o gado lambisca a cinza, preteia a venta, tudo parece perdido. Há quem diga, inclusive, que a terra perde seus nutrientes, argumentos é o que não falta para os ecologistas.
No entanto, alguns dias após a insofismável prática, eis que ocorre o milagre da natureza. Onde antes havia só macega seca e sem sabor, surge o capim verdejante que transforma a paisagem do verão em algo difícil de descrever. O gado engorda, reluz o pêlo, uma beleza. Por sinal, ainda não encontrei explicação para a declarada perda de nutrientes numa macega sapecada há mais de cinquenta anos, mas que sempre enche os olhos de pasto viçoso no verão.
Renovar o campo, por mais que muitos defendam a manutenção do que é seco, ou algum manejo maluco através de medidas de quem nunca criou gado e acha que lavrar a terra e plantar madeira para celulose é solução, pode parecer mesmo absurdo, mas funciona. Por mais que hajam argumentos, trago um fato.
Assim ocorre também na vida. Há quem esperneie ao ver a fumaça engolindo a paisagem, é realmente difícil encarar uma queimada a pulmões plenos. Para os desavisados, o calor do fogo causa até febre, é preciso ter uma certa habilidade. Porém, é inegável que renovar o que já não auxiliava mais o bom andamento das coisas acaba surtindo efeito lá na frente.
De uns tempos para cá, tenho mantido essa postura que não ouso classificar como madura, talvez esteja bem longe disso, mas posso definir como tranquila. É preciso entender que a vida consuma certos fatos que, por A mais B, tornam-se inquestionáveis. Funciona mais ou menos com aquela sábia frase do Carlos Drummond de Andrade, que diz que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Decididamente, concluí que, se for pra sofrer eventualmente, que eu o faça em silêncio. É preciso assimilar as perdas, curar as feridas, juntar os cacos, analisar o que fica de bom e bola pra frente, que minha vida é mais curta para mim, que vivo, do que para quem a assiste. Chegou o momento de não haver mais receio ao riscar um pau de fósforo. O verão agradece.

7 comentários:

  1. Por se tratar de um desabafo, talvez alguns não o compreendam por inteiro. Mas eu, além de compreender, achei perfeito.

    É duro riscar o fósforo, pq ele não deixa nada para trás, queima tudo, sem nos dar a opção de escolha de não queimar algumas partes. No entanto, só pelo verde que ele trará já deve valer a pena.

    Bela reflexão! Um beijo.

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  2. Lindo texto!!!
    Como seria bom se a gente pudesse lançar um pau de fósforo só nas coisas que nos encomodam, que nos fazem sofrer, matando a saudade... e, depois nascer o "verde" para novamente termos alegrias e novamente sermos felizes com o pasto verdejante da felicidade.
    Amo-te muito...
    Um beijão.

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  3. Desabafar pode ser confuso pra quem lê, mas é como riscar um fósforo pra quem escreve.

    Lendo o primeiro pedaço, lembrei-me de um primo meu. Ele mora longe e por inúmeros motivos eu sei que nunca mais o verei. E fico sem saber como classificar o que sinto... É uma saudade diferente.

    E quanto as queimadas... É uma ótima metáfora. Eu costumo dizer que fui a velórios... Entrerrei aquilo ou aquilo... São coisas que não quero desenterrar nunca. Mas as queimadas parecem soar melhor...

    Um abraço bem apertado!!!

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  4. Eu gostaria de ter o tal fósforo e botar fogo em determinados campos da memória, mas acho que nesse caso só o tempo pra fazer crescer novas plantinhas bonitinhas lá onde agora só tem saudade ruim.

    Entendo, até onde dá pra entender esse tipo complexo de sentimento, o que tu quis dizer com essa saudade diferente que a gente sentiu quando eles foram embora. Mas pelo menos deixaram boas lembrnças pra trás, tu que o diga, claro.

    Um abraço!

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