A fé move chuvas

O dia está ensolarado e levemente abafado. A brisa que sopra é morna e os pássaros parecem cantar com uma certa sudorese nos bicos. De súbito, uma lufada de vento mais forte sopra do oeste e uma camada negra que parece única toma conta do céu. É um pretume sem igual. Que pode também ser à noite. O ocaso do sol ocorre sem sobressaltos, mas, em questão de segundos, todas as árvores estão curvadas, os raios riscam o céu e a chuva desaba sem nenhuma piedade, seja com pingos espessos, ou em forma de granizo.

Está instalada uma tormenta.

Todas as pessoas da minha família tem verdadeiro pavor de uma tempestade. Ou melhor, eu é que sou o único que sempre fica na janela admirando a voracidade da virada do tempo. Devo ter um parafuso a menos. Minhas avós, meu avô, minha mãe, a Dani e até os cachorros aqui de casa, todos morrem de medo quando chega uma tormenta. E apresentam práticas bastante peculiares para combatê-la.
Sim, existe um alto grau de crendices antigas que se julgam capazes de desviar uma tempestade. Conheço três: cruz de sal, ramo bento e benzedura a machado. Confesso que até hoje só presenciei as duas primeiras, mas tive que adicionar a benzedura porque gosto da palavra benzedura. Remete a uma velhinha fumando cachimbo, cuja fumaça baforada em meio a frases proferidas em um dialeto único, sempre envolvendo uma oração, tem o poder de curar, aliviar, mudar o destino de alguém. Toda benzedeira deveria ser canonizada por isso.
A cruz de sal foi o primeiro estratagema que conheci. É também o mais simples, pois precisa apenas de sal fino, um pires e fé. Diminui a força de uma pancada de chuva em segundos. Digo isso porque já atestei a vó Dilma montando rapidamente a cruz no pratinho e, macacos me mordam, a chuva foi embora. Certa vez, inventei de comer a cruz de sal. Um verdadeiro sacrilégio. Nunca comam, em hipótese alguma, uma pitada sequer da cruz salina. A chuva volta com força dobrada, é um pavor.
Já o ramo bento é mais sofisticado, pois envolve etapas e fogo. A primeira medida é, naturalmente, benzer o ramo. Não me perguntem o tipo de ramo, pois entendo pouco de plantas. Normalmente, o ramo já chega bento e não sei nem se existe dia especial para abençoá-lo. Feito isso, o procedimento é até simples: chegada a tormenta, reze e queime o ramo. Aparentemente, a fumaça emitida junto à reza também espanta a chuva.
Sobre benzer uma tormenta com machado, daí já remete a um nível de gauchismo que ainda não encontrei por estas bandas. Contudo, ouvi na letra de uma música algo relacionado a este procedimento, ao que acredito que o vivente, dotado de um machado e sabedor das palavras certas (provavelmente que envolvam também a fé em Deus) tem, sim, condições de mandar embora a chuva, trazendo paz e bonança aos arredores.
Aqui onde moro choveu a noite passada. Acordei em meio à madrugada com lufadas de vento dando a impressão de que nossa casa decolaria. Tormenta das brabas. Como meu sono tem o peso de um casal de rinocerontes fornicando, tratei de virar para o lado e deixar que a natureza fizesse o que bem entendesse. Tenho de confessar que troquei as orelhas com a força do vento, pois a impressão que dava era que a qualquer momento uma onda gigante inundaria tudo e este blog nunca mais receberia um texto sequer da minha pessoa, a menos que Steven Spielberg baixasse aqui em casa e eu conseguisse milagrosamente sobreviver agarrado a um cinamomo.
De qualquer sorte, preferi dormir. Porém, algumas fungadas depois comecei a sentir o quarto inundado de fumaça. Cacilda, ou chove, ou pega fogo na casa, uma coisa de cada vez! Chequei o travesseiro ao lado e notei que a Dani não estava deitada. Percebendo sua movimentação na cozinha, perguntei que fumaça era aquela. "Estou queimando um ramo bento", respondeu com a voz trêmula. Dito isso, fiquei tranquilo. Amanheceu chovendo, mas a tempestade logo foi embora. Não falha nunca.
Pela manhã, quando acordei, dei-me conta de apenas um detalhe: minhas avós sempre queimam o ramo bento no fogão à lenha, algo que não temos aqui em casa. Como então a Dani teria queimado o dela? Uma frigideira da cor de carvão, toda sapecada, e alguns fiapos do que sobrou do ramo denunciavam a tática utilizada. O que importa é que funcionou. Que ninguém mate, porém, nenhum sapo nas redondezas por estes dias. Sim, porque quando eu era pequeno me diziam que, se eu matasse um sapo, choveria três dias sem parar e...

5 comentários:

  1. Manda essa chuva pra cá Ton, pelo amor de Deus, não aguento mais esse tempo seco =/
    E não conhecia esses "métodos" para acabar uma tormenta HAHAHAHAH bem interessante.Vó sabe de tudo nessa vida, se seguirmos os conselhos delas ficará tudo bem ;)
    Beijos

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  2. Ai que máximo! Magina, tempestade e incendio duma vez só. Que bom que a Dani sabe das coisas, deve ser a fase mãe da vida que faz com que a gente pare tempestades. Por aqui, a gente abre um terço na cama, funciona também. Abraços nocês e manda um golinho pra cá.

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  3. Como se não bastasse toda a história maravilhosa, o final com essa arte peculiar da Dani foi demais! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ai gente! Ri horrores aqui.
    Mas olhe... Quando criança ia muito em benzedeira e funcionava. A danada da velhinha é porreta!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Eu sabia só a história do ramo bento. Até ganhei uns galhinhos/folhas/seilá desse tal trem, mas grazadeus nunca precisei usar. Acho que sou tipo tu, saca? Não acordo. Simples assim.

    Ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei ♥

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